domingo, 21 de setembro de 2008
Sombra azul
Sentada nos degraus daquela escada fria, tinha ao seu lado uma companhia. Não conversava com ela, mas se sentia acalentada somente por não estar sozinha. Olhava para seus próprios pés, calçados com o dinheiro e o mundo. Podia sentir as pessoas passando à sua volta, carregando nas bolsas, maletas e mochilas, fragmentos de si mesmos, na maioria bem escondidos. Todos por si só e por eles mesmos. Enquanto seus olhos viçosos acompanhavam instintivamente a alienação alheia, as recordações semi-recentes brincavam e se mexiam, dando cócegas em sua mente. Lembrava daqueles momentos de tormento que passou tentando fugir daquela que pensava ser uma amizade infortuna. Mas todo e qualquer esforço sempre não era forte o bastante para separar algo que era como a sombra em luz. Vezes ou outra pensou ter conseguido êxito. Já tivera a esperança de ter encontrado mais que uma simples presença que não fizesse só refletir. Porém, isso já fazia parte do tempo corrido. Ao longo das horas, dos dias, dos anos, aprendeu a lidar com o vago. Acostumou-se com aquela companhia que, mesmo nos piores tempos, nunca a havia abandonado - talvez mais por servidão do que por questão. Acreditava que era ela, aquela companhia, que afastava os outros de pólos iguais. Mas tinha sérias dúvidas quanto a isso, pois conhecia a si mesma e desconfiava haver um dom de inibir qualquer existência de proximidades maiores com demais e demais. Aos poucos começou a achar aquela companhia não tão desagradável assim. Apesar da sua seriedade e quietude, por vezes era tranquila e a fazia sorrir calada um sorriso que ninguém mais conhecia. O silêncio que se instalava não era tão cortante quanto antes. Aprendeu a sentir melhor os ares, os movimentos, as tonalidades, os temperamentos. Passou a dar maios valor ao estado solitário, o que sempre lhe assegurava estar firme, mesmo com as constantes instabilidades vividas. No entanto, a fraqueza não era de toda extinta, como era de se esperar. Às vezes podia até ouvir a insegurança ou a tristeza fracamente corroendo devagar suas entranhas, que se reviravam de temor e agonia. Passageiro, como tudo. Não importava. Todas as divagações se tornariam aurora dos possíveis novos céus. E por mais que pareça não houvesse ninguém por perto, nunca estaria sozinha. Assim como qualquer um, sempre teria a certeza daquela companheira: a solidão.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Desabafos de um grau e meio
Hoje vim aqui expor minha experiência para que todos como eu - e tenho certeza de que há ilhares por aí - não achem que são os únicos no mundo. É uma história de tragédia, um caso de abandono. Eu, agora, estou no fundo do poço. Minhas únicas companhias são ratos e baratas. E depois de um tempo - pode acreditar - você começa a achar que são as melhores companhias que se tem, principalmente quando a outra opção é a solidão absoluta. Acho que já deu para ter pelo menos uma idéia da minha atual situação. Mas saiba bem que nem sempre foi assim. Tive meus tempos áureos, dias de felicidade plena. Ainda me lembro claramente daquela época maravilhosa que passei ao lado daquela pessoa. Ah.. sim.. aquela pessoa.. Conheci-a de repente, sem aviso prévio. Eu estava num lugar qualquer, olhando distraidamente para qualquer coisa. Então, naquela tarde fria de inverno, aquela pessoa surgiu num aparecimento cinematográfico. Com a luz forte do sol irradiando sobre seus cabelos bonitos, vagarosamente foi passando com classe seus pés da calçada cinzenta e suja para o chão claro e polido da loja onde eu estava. Tive aquela incrível sensação de que, perto dela, eu era um entre milhares e milhares de insignificantes não-notados, simplesmente apagados por sua presença singular. Naquele momento nunca poderia nem sequer ter imaginado que eu seria percebido; que eu atrairia sua atenção. Foi um momento de pura alegria. Meu ego foi às alturas. Ela poderia ter escolhido qualquer outro, mas seu interesse recaiu sobre mim. Foi um momento mágico. Se antes eu vivia uma vida latente, à espera de alguém, depois daquele dia foram somente emoções. Vi uma paixão à primeira vista se tornar um amor cada vez maior e mais forte. De uma hora para outra eu a acompanhava em tudo. Passeávamos, andávamos por aí para passar o tempo, jogávamos desde jogos mais complexos até os mais bobos, assistíamos a filmes, séries, novelas.. -sim, até mesmo novelas! -, líamos livros juntos, eu a ajudava nas coisas da faculdade e de casa. Ninguém nos separava. Ela depositou em mim uma importância e essencialidade estrondosos e inacreditáveis. E eu, é claro, retribuí de maneira incondicional. Seus olhos lacrimejavam quando ficávamos algum tempo ser nos ver. Acreditava de todo o coração que aquilo seria eterno. Que aquela relação não acabaria nem que chegasse o apocalipse. Mas, então.. de repente, não mais que de repente.. algo estranho começou a acontecer. Depois de tantos anos juntos, nossos encontros se tornaram escassos e o tempo que eu passava com ela não era mais tão longo como antes. Ela começou a sair com uns novos contatos esquisitos, que eu nunca tinha visto, mas já tinha ouvido falar. Eu tentei desesperadamente mostrar a ela, fazê-la ver mais nitidamente que eu era importante e confiável e que aqueles seus contatos não a levariam a nada. Mas não adiantou. Fui esquecido. Inutilmente eu relutava calado, tentando agir como sempre para que ela enxergasse e lembrasse de como nosso companheirismo foi bom. Comecei a assistir aos filmes, séries e novelas sozinho, largado no sofá como um qualquer. E comecei a reparar que nessas estórias de TV e cinema, aqueles muitíssimo semelhantes a mim - com o mesmo esteriótipo, com as mesmas características - sempre ficavam ao lado das chamadas 'feias', 'nerds', ou seja, do grupo das 'desajeitadas', das 'excluídas', das 'mal arrumadas'. Um absurdo! Puro rotulismo!! Ou será que era a realidade? Era mesmo tudo aquilo? Por isso ela não me queria mais perto dela? Tinha vergonha de mim? Não sei ao certo o que de fato era verdade ou não. Mas as duvidas e a falta de respostas não mudou o meu destino. Foi assim que cheguei ao extremo da melancolia, da infelicidade. Era o fim de tudo. Havia acabado aqueles belos dias de sol ao lado dela e era o início de horas arrastadas de negrume em companhia de animais andarilos de esgotos e lixo. Vivo hoje me alimentando somente das lindas lembranças que tenho e terei guardadas eternamente na memória. Sei que minha vida era só com ela. Não há outra pessoa que sirva para mim nete mundo. Estou cheio de marcas, arranhões; mas caminho para o final de tudo de cabeça erguida. Fico feliz por ter feito tudo que pude por ela. Minha existência não tem mais significado algum, porém acredito ter cumprido minha missão honrosamente, mesmo tendo sido jogado fora. E nisso se resume a minha vida. Não tenho receio nem vergonha de contar tudo isso para qualquer um que queira saber. Eu poderia agora terminar aqui e preservar minha identidade, ainda mais estando na sarjeta. Mas não. Eu quero ser lembrado, quero meu nome fixado na mente das pessoas. Por isso me apresento com orgulho. Muito prazer, eu sou o Óculos.
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
... "and we'll never survive if we're not a little crazy"
Em uma manhã de inverno, depois de passar alguns minutos dormindo em pé dentro de um ônibus abarrotado de gente, sono e vento frio, ela chegou àquele lugar. Sim. Há quanto tempo não colocava os pés naquele chão irregular, no qual pisara muitas vezes ao lado de pessoas amigas. Sentiu o retorno à rotina, depois de dias de sonos longos e horários descompromissados. Atravessou o portão e foi levada pelo corpo, já condicionado a chegar no lugar certo quase que instintivamente. Mesmo com as férias, o caminhar ainda continuava automático. Chegou até a escada e subiu cada degrau sonambulamente sabendo que seria a primeira a chegar na sala do último andar, como sempre fora de costume. Esquecera-se, porém, que agora a sala permaneceria vazia, mesmo com o passar das horas matinais. A chegada dos professores não traria mais os alunos até seus lugares em frente ao quadro negro - aliás, será que alguma vez trouxera? Olhava para aquele batalhão de carteiras, pensando no sentido de estarem ali se não havia mais pessoas suficientes para ocupá-las de conversas descontraídas e rotineiras - e algum estudo. Aaaa.... percebeu... havia tempo que os sinais começaram a aparecer... sim.. agora podia ver... A saída da garota de saia e all-star e o fim das suas conversas diárias foi suficientemente péssimo. Mas tinha sido somente o estopim. A continuação estava por vir. E veio. As outras conversas também seriam, agora, noturnas. Agora só restava sorrir. Ficar abalada não daria mais. Não seria bom nem eficaz nem produtivo. Aquilo tudo que havia passado valera muitíssimo a pena. Um prêmio não valeria nada se não fosse o esforço e as risadas que levaram até ele. A vida não valeria nada se não se buscasse aquilo que se acredita ser o melhor para cada um. Caiu em si e pensou "Crescer é isso": aceitar que os caminhos se separam. E estar torcendo sempre pelas pessoas que um dia alegraram os momentos que puderam alegrar. E lembrar delas uma vez ou outra e outra... quando se ouve aquela música emo na rádio ou se vê aquelas havaianas de tiras douradas nos pés de algum desavisado da vida; quando se vê em todo lugar um tal refrigerante que estranhamente tem o mesmo nome de uma ovelha clonada; quando o professor cria babinhas brancas no canto da boca ou outro aparece trazendo alguma caneta furtada de alguma aluna por aí. E, então, ela olharia para a sala e para os corredores vazios, mas com algum calor do sol no início de seu raiar cotidiano e sairia correndo na direção que pertencia a ela, buscando a razão das razões talvez inexistentes, por meio de uma filosofia inventada e sem nexo. Mas isso não importava. Enfim, continuaria vivendo como uma louca - menos louca sem loucos por perto - gritando baixinho por todos os lados: Hakuna Matata, é isso aí!!
sábado, 28 de junho de 2008
Número

A uma semana de deixar para trás mais um número da minha vida, fico a lembrar e relembrar dos fatos que passaram com esses dois dígitos que não mais me representarão como aquilo que os seres de vida mundana denominam idade. Olho para esse ano que passou ~voando, por sinal~ e vejo tudo que nele ficou e ficará marcado e que agora será parte de alguma coisa chamada passado. E assim digo adeus a um número que foi meu uma primeira e última vez. Um número que marcou meu tempo e nesse tempo tatuou uma infinidade de momentos. Digo, então, adeus a esse número que me recordará a conquista de um reconhecimento que me deixou feliz! Digo adeus a esse número que me recordará que passaram a fazer parte da minha vida pessoas deveras especiais. E que várias outras ainda continuaram por perto e por longe desde outros tempos.
Estando, pois, tão próxima desse momento de despedida de um número, fruto de uma mera contagem humana, pergunto-me pateticamente por que animais racionais comemoram por estarem um ano mais próximos do seu próprio fim. E percebo que é por simples e pura questão de olhares diversos. Uns comemoram por ser o dia em que o mundo veio a eles. Outros fazem festa pensando em ganhar mais meias, cuecas ou calcinhas da vovó e da titia ~sem preconceitos. E uns outros celebram os 365 dias que se passaram sem maiores turbulências e que trouxeram experiências, conquistas, mudanças.
Eu?? Penso demais em explicações para tudo por aí, mas agora digo somente: Eu?? Eu só fico feliz. Simples assim. Desde criança penso que eu tenho um dia só meu ~mesmo que ele seja de muitos outros também e mesmo que, por um lado, signifique o futuro tornando-se presente e o presente tornando-se passado. Posso até passar por instantes de depressão, de reflexão, de melancolia, de tristeza. Mas faz parte pensar no que se foi e no que virá. Fico feliz por ter tido pessoas com quem sorri, por quem chorei, com quem ri, por quem me preocupei, com quem aprendi, por quem ensinei, com quem briguei, por quem sofri. Pessoas que permanecem mesmo com o passar dos números. Reles números.
Queria ter feito muito mais coisas, queria ter mudado outras mais. Mas e daí??
E assim, é ainda com alguma relutância que dou adeus. Adeus, 19! Seu tempo já foi. Agora é a vez de outro marco. Bem-vindo, 20.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Quatro Luas

Em algum lugar
uma lacuna
Em lugar algum
quatro luas d'uma
[não há
Então
Uma memória inócua
límpida, sem marca, sem mágoa
antes agora
vê em si crescerem raízes
de fora
de dentro
No silêncio uma nota
No imenso uma porta
Na melancolia um sorriso
No vazio um aviso
[haverá
No círculo completo
Da noite clara na vida escura
um riso sereno
Da luz opala sem rasura
A face mentira daquela verdade
Expira clareza inspirando claridade
N'agora plenitude bela
Da existência certa
Na nota uma canção
Na porta uma chegada
No sorriso um coração
No aviso um fato
[há
passado momento
soprado pelo vento
O brilho alado deveras errante
No desaparecimento minguante
Do aparecimento recente
A existência restante
Dissipa
de vez
resta
Da canção um timbre
Da chegada a partida
Do coração uma batida
Do fato uma certeza
[houve.
por samanta.h.m
Se alguém quiser comentar uma interpretação, à vontade...
sábado, 31 de maio de 2008
Guarda-roupa

Parada em frente ao guarda-roupa, pensava em como arrumá-lo, como sempre fazia. Enquanto o calor coloria o dia, a umidade fria acinzentava o quarto onde ela dobrava seus problemas e os colocava ao lado das suas desculpas azuis - com as quais se cobria quando era tempo de inverno... e como havia inverno! Tinha acabado de ganhar uma nova grossa oportunidade de malha e foi guardá-la com as antigas. Onde estavam mesmo? Hm... talvez estivessem perdidas em meio àquelas certezas de seda e incertezas de algodão cru. Procurou nas gavetas. Encontrou somente verdades de lã que não gostava muito de vestir porque pinicavam. Remexeu mais um pouco e sentiu em suas mãos a superfície lisa e rústica das mentiras de couro. Cansou. Então deixou aquela oportunidade por ali mesmo, em qualquer lugar, jogada junto ao monte de pares incompatíveis de meias-verdades. Não queria ser incomodada enquanto estava ali, tentando deixar suas coisas como deveriam estar.
Assim como sempre ouvia ruídos, sempre os ignorava. Mas por algum motivo, quando sentiu aquele som suave e insistente aguçando seus ouvidos hostis, olhou, pela primeira vez em anos, para a janela às suas costas. Não viu nada além de um quadrado vazio. Percebeu, no entanto, que seus olhos, por um momento, haviam se enganado. Ali, com toda a sua paradoxal fragilidade e força, havia um minúsculo ser a observá-la, surpreso. Ambos permaneceram imóveis e o silêncio maciço só perdeu sua solidez ao ser atingido pelas primeiras palavras lançadas da janela. "Não me condene por essa pequena invasão, por favor. Pensei que aqui fosse um bom lugar para eu passar uma temporada sem ser incomodado e sem incomodar. Percebo agora o meu equívoco, pois vejo que a perturbo".
Ela pegou cada uma daquelas palavras soltas no ar, mastigou-as devagar e, por fim, absorveu-as no mesmo instante em que viu aquele que lhe falava tinha seu corpo coberto pela metade.
Mais um bloco de silêncio começou a se formar, sendo dissolvido antes que pudesse se consolidar. "O que faz aí?"
A resposta não precisou ser codificada. Era claro o que ele fazia. Estava ali se cobrindo por um tempo para se reorganizar, recluso e salvo de qualquer interferência alheia. Ela acreditava já saber. "Não precisa nem dizer, pois sei que faz a mesma coisa que eu".
Ele a olhou e em seus olhos havia ceticismo, brilhando translúcido o suficiente para ser notado. A irritação começou a aflorar sobre cada célula epitelial dela. "Nós dois estamos nos esforçando para nos reorganizar, mesmo que para isso seja necessário nos excluir por um tempo do mundo ali fora".
"Está certa e errada. Ambos estamos formando nossos casulos, no entanto me parece que somente um de nós o romperá. Ao final de um tempo conseguirei, pois, voar! O tempo necessário me dará asas para conhecer o mundo".
Ela se virou para seu armário. Numa ação quase impensada, começou a revirar suas coisas. Não havia espaço para mais uma verdade recém tecida que jazia em seu colo ainda cheirando a novo - que aroma torturante!
"O que procura aí?"
Sem olhar para a janela sequer demonstrou algum esforço para responder. Pensou consigo mesma que também deveria haver asas para ela ali em algum lugar.
O ser ignorado, continuando a cobrir-se, por algum tempo observou quieto a bagunça se multiplicar conforme ela procurava incessantemente. "Não acha que já olhou demais para esse lado aí?"
Novamente não respondeu, mas pareceu escutar, pois logo em seguida abandonou o lado onde estava e foi apressadamente desorganizar um pouco mais o outro lado do armário.
Com o corpo, agora, praticamente oculto por aquele fino - porém resistente - envólucro, riu-se. "Não. Você já olhou demais para esse lado de dentro. Já é hora de olhar um pouco para o lado de fora".
Ao perceber essas palavras atingirem em cheio a sua nuca, parou instintivamente de remexer tudo à sua volta. Sentiu aquele aglomerado lexical se derreter e penetrar a sua pele, deixando-a latejante e ardente. Virou-se para a janela e viu que aquele conjunto de sinceridade e incógnita tinha agora o corpo coberto por inteiro. Olhou para o armário. Seria livre? Virou-se para a janela mais uma vez e sorriu. Não era mais um quadrado vazio.
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